Acampamento Opus Solis

“E eu creio em uma Terra, a Mãe de todos nós”: Thelema e Meio Ambiente.

Faze o que tu queres será o todo da Lei.

É difícil marcar com precisão histórica quando e como se procedeu a mentalidade e cultura humana da indiferença sobre o meio ambiente. Tomarei a modernidade como ponto de partida em especial a Primeira Revolução industrial. Desde então há desenfreado crescimento da imprudência e desrespeito aos ecossistemas, à diversidade de espécies e recursos naturais deste planeta. A invenção do lucro no sistema capitalista é a principal causa de desigualdades que conduzem nações inteiras ao sofrimento da miséria e também é responsável pela onda que degrada o meio natural.

No entanto, não há dúvidas que sejamos uma espécie inventiva. Da fala à arte, da poesia à computação, da roda às grandes edificações contemporâneas e imemoriais, do agronegócio às viagens espaciais, das bombas atômicas aos parques aquáticos. A tecnologia e a inventividade, como meios de desenvolvimento e em determinados momentos como meios de sobrevivência básica, não podem mais existir na contemporaneidade livres de uma conduta ética mínima para com a Natureza no sentido de sua preservação. Não basta inventar, criar, descobrir: é necessário urgentemente agir de maneira consciente quanto ao uso das criações humanas (todas belas em suas particularidades, algumas muito úteis outras nem tanto), pois tais invenções não devem interferir no direito de existir e de viver de qualquer outro ser.

É um desafio enorme pensar em meios de vida que escapem da degradação ambiental, pois isso envolve uma árdua guerra contra o estabelecido sistema empresarial multinacional, cujos valores são indiferentes à causa ambiental. Como viver sem a indústria do petróleo, se há necessidade dessa matéria prima para o sistema de transporte (e outros derivados) em todo o mundo, que ao mesmo tempo nos priva, por exemplo, do direito de respirar ares puros? Como viver sem a indústria da soja se ela rende bilhões aos países exportadores que supostamente deveriam usar as riquezas produzidas para o bem-estar social? Como viver sem a extração mineral imperialista e aniquiladora do mundo natural? Como viver de acordo com atitudes sustentáveis perante a uma cadeia de relações de produção-consumo já formuladas?

Estamos presos a uma lógica inventada que é altamente destrutiva e temos preguiça de mudar nossas pequenas vidas. Somos egoístas ao ponto de não nos importar, por exemplo, sobre a real necessidade, quantidade e destinação do plástico que consumimos. Nossas mesas são decoradas com garrafas PET. Em contrapartida, adoramos postar nas redes sociais alertas sobre esses poluentes, com imagens de animais marinhos sufocados por sacolas e canudos, em uma militância virtual sórdida que em nada contribui se a informação difundida não causar mudança no comportamento de cada sujeito que é tocado por estes fatos; neste caso, a informação servirá apenas para que o ego, em sua faceta mais terrível, seja massageado por alguns likes gerando uma ilusão na consciência de “serviço feito”.

Portanto, há duas questões fundamentais, a princípio: a capacidade e poder inerente a cada um de nós de adotar novos hábitos a partir da reflexão sobre o necessário e o supérfluo e a capacidade e poder de extinguir ou manter o uso de determinadas tecnologias que impedem o livre existir de qualquer ser. E livre existir está também nas coisas “mínimas”, porém profundas em significado como o direito de uma alimentação de qualidade livre de agrotóxicos, o direito do ar puro, o direito de usufruir o bem-estar do planeta e de suas maravilhas naturais que como patrimônios de todos não devem ser simplesmente extinguidos em proveito do lucro privado predatório. Há também o direito de existir de tudo o mais que é criação vivente nesse planeta e o próprio direito do planeta em si de existir.

A degradação ambiental é totalmente contrária aos princípios Thelêmicos. Pois Thelema não é um conjunto filosófico ou ético exclusivo para seres humanos que estariam descolados da relação com a Natureza, o que é impossível. Na medida em que buscamos enquanto Thelemitas nosso lugar no universo a partir do exercício da Verdadeira Vontade, caso a vontade tenha o caráter de impedir a vida de qualquer outro ser seja direta ou indiretamente, a vontade é falsa, pois ela restringirá o direito de existência de outros seres e Vontades não se chocam desta maneira. A Verdadeira Vontade está em harmonia e equilíbrio com o universo. E, ainda que qualquer pessoa não tenha se deparado com a Santa Vontade, isso não a impede de trabalhar para novos hábitos individuais e coletivos que envolvam o equilíbrio entre as necessidades de sustento e de vida e o meio ambiente. Da mesma forma em que nos propomos a uma mudança de hábito para o alcance da Verdadeira Vontade ou algum estado de Samadhi a partir de práticas de Magick, somos também capazes de repensar nossas relações de consumo e como estas afetam o planeta. Não é inocência pensar que os atos particulares, quando somados, possam causar reais mudanças e quebrar sistemas de produção degradantes frente à inclusão de novos sistemas de plantio, extração mineral, etc. que tenham maiores preocupações com a Natureza e que sejam sustentáveis; alternativas estas já disponíveis e mesmo assim impossibilitadas de serem aplicadas devido às práticas lobistas de finalidades escusas.

É muito gratificante observar o número significativo de pessoas engajadas em Thelema, número sempre crescente e, sobretudo, de sujeitos Thelemitas que buscam alinhar-se com sagrado princípio de Babalon. Mas considero curioso quando somos capazes de elevar nossos espíritos ao mesmo tempo em que não nos preocupamos com o estado lamentável que o planeta se encontra. No Credo da Missa Gnóstica (Liber XV) Babalon é a Terra-Mãe: “E eu creio em uma Terra, a Mãe de todos nós, e em um Ventre no qual todos os Homens são gerados, e onde eles deverão descansar, Mistério do Mistério, em Seu nome BABALON”. Assim sendo, “BABALON, como a Grande Mãe, representa a MATÉRIA, palavra derivada da palavra latina para mãe (mater). Ela é a mãe física de cada um de nós, aquela que nos forneceu carne material para vestir nossos espíritos desnudos; Ela é a Mãe Arquetípica, o Grande Yoni, o Ventre de tudo o que vive através do fluxo de Sangue; Ela é o Grande Mar, o próprio Sangue Divino que encobre o mundo e que corre em nossas veias; ela é a Mãe Terra, o ventre de toda a vida que conhecemos.”. – Soror Helena e Frater Apiryon. Estudos do Liber XV, A Missa Gnóstica.

E neste planeta chamado Terra, reflexo material e infinitamente abundante de Babalon, despejamos nosso lixo e nossa infantilidade, abusando indiscriminadamente de seus recursos. Oferecemos a Ela o nosso pior e este é aceito, pois Babalon está além de nossas capacidades racionais e Dela Tudo provém e Tudo retorna. E a própria Natureza, sábia como é, tem a habilidade de se refazer e transmutar, fazendo de nossa existência um ato insignificante. Mas o que nos impede de oferecer o melhor?

O iniciado ou o sincero buscador sacrifica à Sagrada Taça de Babalon seu ser lapidado em máxima perfeição possível, e essa perfeição não é uma abordagem metafísica ou apenas espiritual; é também, antes de tudo, parte dos planos mais baixos e básicos e se relaciona às nossas ações no mundo em que vivemos. Thelema não é uma prática ou forma de vida em que nos isolamos total e completamente no templo, na montanha, na floresta ou na caverna, nos isentando de responsabilidade, lavando as mãos para a realidade objetiva. Thelema é o existir no mundo como deuses conscientes por cada gesto e palavra, atuando com a máxima harmonia. A Natureza em si é o reflexo da harmonia desejada observável seja nas estações perfeitas, nos biomas com inter-relações diretas e indiretas ao ser humano, na delicada cadeia de eventos que regulam as espécies e se auto mantém. O sapo “isolado” na floresta Amazônica está em relação, em algum grau, com nós mesmos. E harmonia e equilíbrio são uma das tarefas do Thelemita que aceita por completo o Livro da Lei. As correspondências conjuntas de Lamed (a letra hebraica), o signo de Libra e o Atu do Ajustamento no Tarot são uma chave para a compreensão de Liber AL. Indico a leitura meditativa do Liber Librae para esta questão e uma análise do Atu VIII.

Mas pergunto: qual a finalidade na realização de ritos, meditações, invocações e evocações, ofertas à natureza, o cantar hinos para deuses antigos se em nossos comportamentos individuais desprezamos tudo o que estas práticas podem representar para a vida cotidiana? Qual o real propósito em nos colocar em asana, ascender incensos, ler livros e aumentar nossa capacidade intelectual em magia, buscar o ensinamento secreto das Ordens, se há incapacidade em melhorar nossas condições de vida adicionando a isso o real e palpável respeito à Natureza? Para qual propósito nos permitimos fascinar com princípios arquétipos como Babalon, Isis, Inana, Deméter, Gaia, Cerridwen, Freya, etc. se não somos capazes de nos responsabilizar pelo próprio lixo que produzimos e, elegendo nesse quadro os mesmos representantes políticos que ignoram a urgente demanda de melhora da nossa relação coma Natureza? Esses políticos representam o pior para a humanidade e não são dignos do poder de voto de um Thelemita. Todos os lacaios que abusam e desprezam a Natureza e sua preservação, de maneira ostensiva ou simbólica, não estão de acordo com os preceitos de Thelema. E se resta alguma dúvida para quem seja, devemos lembrar-nos do “Dever para com todos os outros seres e coisas”:

1. Aplique a Lei de Thelema para todos os problemas de aptidão, uso e desenvolvimento.

É uma violação à Lei de Thelema abusar das qualidades naturais de algum animal ou objeto, desviando-o de suas funções próprias, como determinado pela consideração da sua história e estrutura. Assim, treinar crianças para realizar operações mentais, ou para praticar tarefas para as quais está despreparada fisicamente, é um crime contra a natureza. Similarmente, construir casas de material carcomido, adulterar comida, destruir florestas, etc., etc., é ofender.

A Lei de Thelema é para ser aplicada firmemente na decisão de cada questão de conduta. A adequação inerente de qualquer coisa para qualquer uso proposto deve ser o único critério.

O aparente, e algumas vezes até real, conflito entre interesses irá surgir frequentemente. Tais casos são para serem decididos pelo valor geral das partes em contenda na escala da Natureza. Assim, uma árvore tem direito a vida; mas um homem sendo mais que uma árvore, ele pode cortá-la para combustível ou abrigo, quando a necessidade surgir. Mesmo assim, deixe-o lembrar que a Lei nunca falha para vingar infrações: como quando o desmatamento irresponsável arruína o clima ou o solo; ou como quando a importação de coelhos para um suprimento barato de comida criou uma praga.

Observe que a violação da Lei de Thelema produz males cumulativos. O escoar da população agrícola para as grandes cidades, devido principalmente à persuasão dela para abandonar suas ideias naturais, tem não só tornado o campo menos tolerável para o camponês, mas pervertido a cidade. E o erro tende a aumentar em progressão geométrica, até o remédio se tornar quase inconcebível e toda a estrutura da sociedade ser ameaçada com a ruína.

A aplicação sábia, baseada na observação e experiência da Lei de Thelema, é trabalhar em consciente harmonia com a Evolução. Experimentos de criação, envolvendo variações dos tipos existentes, são lícitos e necessários. Seu valor deve ser julgado por sua fertilidade como testemunha de sua harmonia com o curso da natureza em direção à perfeição.

Ademais à grande e necessária citação, a degradação ambiental não é um alerta calamitoso irreal. Há inúmeros relatórios internacionais feitos pela comunidade científica que comprovam o avanço desenfreado da perda dos recursos naturais e da diversidade do planeta e seus riscos, basta uma pesquisa dedicada. Pensar a relação entre Thelema e Meio Ambiente não é um chamado para que Thelemitas se tornem militantes da causa, ainda que esse ato possa ser bem-vindo. Pensar o meio ambiente a partir da perspectiva Thelêmica é reconhecer nossa responsabilidade sobre o mantenimento da Natureza e que pode ser aplicada em pequenos gestos cotidianos que exigem o esforço individual de mudança de hábito e reflexão sincera sobre o consumo desenfreado e inútil e a aplicação de alternativas menos degradantes. É encarar a Natureza como reflexo das leis mais divinas, entendendo-a, juntamente com o próprio planeta Terra, como um dos aspectos manifestos no mundo objetivo de Nossa Senhora Babalon e de tantas outras imagens arquetípicas que nos tocam.

“Agora que seja primeiro entendido que Eu sou um deus de Guerra e de Vingança. Eu lidarei duramente com eles”. – Liber Al vel Legis, Cap. III:3.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Soror Lótus