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Fallitur Visio

O que nos vem à cabeça quando ouvimos a palavra religião?

Ainda muito pequenos, exploradores recém-chegados, deparamo-nos com a palavra religião – e raras são as vezes em que isso não acontece -, saindo das bocas de nossos pais e familiares. E junto a essa palavra vem todo um conjunto de idealismos, dogmas, vários “não pode” e o adestramento.

Com explicações “bonitinhas e ordinárias” tentam nos vender um “doce” que traz “alívio” e nos “purifica”. Sim, mesmo quando acabamos de chegar, eles já têm a data do batismo em mente e uma série de desejos deles para que nós possamos vivê-los, cumpri-los e espelharmos e raramente o nosso conta, creio que com nossos pais também ocorreu essa “herança maldita”[ e assim tem sido desde que entendemos erroneamente essa palavrinha: religião.

Mas o que entendemos da palavra sem ser vinda dos nossos pais, do Tchandala ou da sociedade?

Bom será necessário um passeio pela antiguidade romana para entendermos essa palavra e como ela ficou tão introjetada em nossas psiques. Ao que parece este conceito estava presente no cotidiano dos cultos romanos antigos, quando também passou a designar as práticas crististas que surgiam na época.

Em L’Occident et la religion, Dubuisson chama a atenção para o fato de que a palavra Religio só podia ser o sentido primeiro e muito especializado de uma palavra latina antes ordinária e que permaneceu assim até que os primeiros pensadores crististas se apoderaram dela e favoreceram-se com seu uso, ou melhor, manipularam o seu sentido até o que conhecemos hoje.

No Le Vocabulaire des Institutions indoeuropéennes, Benveniste afirma que Religio, em sua origem, não designa a “religião” no seu conjunto, mas é antes uma palavra relacionada com o termo escrúpulo. Em um velho fragmento de uma tragédia perdida chamada Astyanax de L. Accius, nos restaram esses dois versos:

(…) coloque um termo, Calcas, às tuas religiones: pare de retardar o exército e de me impedir de voltar para casa por causa de teu presságio sinistro.

As religiones do adivinho Calcas, nascidas de um presságio sinistro, forçam o exército a permanecer parado e impedem o herói de voltar para sua casa.

Podemos observar então, que o sentido de Religio seria confirmado pelo derivado religiousus que designa o “escrupuloso em relação ao culto”. Nota-se que o termo Religio, pertencia ao cotidiano romano e que mais tarde ganha extrema importância no modus operantis dos crististas deslocado de seu contexto original, criando um domínio específico para a religião. Após sua delimitação, esse termo se difundiu e se impôs a todas as outras línguas do mundo ocidental.

Bom, não foi assim que ensinaram para a gente nas aulas de religião na Escola certo?

Peguemos o que Cícero nos diz sobre os termos em Sulla Natura Degli Dei. Segundo ele, o conceito de Religio tem como origem etimológica o termo Relegere. A prática religiosa romana está associada ao zelo, a uma relação respeitosa com os deuses que torna necessária a execução precisa dos ritos. Com isso, a realização correta dos rituais ganha extrema importância já que é a maneira de estar em contato direto com a divindade vindo daí o termo Relegere.

Em De Natura Deorum, Cícero escreve:

(…) aqueles que retomavam (retractarent) diligentemente e, de alguma maneira, relegerent todas as práticas do culto, foram chamados religiosos do verbo relegere, como elegantes deriva de eligere, diligentes de diligere e intellegentes de intellegere. Em todas essas palavras está implícito o mesmo significado delegere que achamos em “religioso”.

Segundo Benveniste, Relegere diz respeito a recolher-se, a fazer uma nova escolha, a retornar a uma síntese anterior para recompô-la, e Religio, o escrúpulo sendo na origem, uma disposição subjetiva, um movimento reflexivo ligado a algum temor de caráter religioso: “refazer uma escolha já feita (retractare, diz Cícero), revisar a decisão que dela resulta: tal é o sentido próprio de Religio. Ele indica uma disposição interior e não uma propriedade objetiva de certas coisas ou um conjunto de crenças e de práticas. A Religio romana, na sua origem, é essencialmente subjetiva.

É nesse mesmo sentido que o helenista Karl Kerényi também irá entender a Religio. Seu conteúdo, segundo Kerényi, é feito do ser dos Deuses que ela pressupõe e afirma continuamente de uma forma natural: a Religio é escuta tenaz, atenta e um comportar-se em consequência dessa escuta. Assim, além da existência dos Deuses. As duas condições de Religio são: que alguma coisa de divino se dê nos acontecimentos do mundo e que esse divino seja perceptível a quem sabe escutar. Não ouvir seria o contrário de Religio, e por isso que os romanos faziam uso dos oráculos na sua relação com os Deuses: “(…) negligere é justamente, nesse caso, o contrário de religio”. Kerényi lembra que Cícero, no seu livro sobre a adivinhação, afirma que os antigos romanos utilizavam os oráculos para não negligenciar nenhum sinal vindo dos deuses. Contudo, mesmo Cícero afirmava que o uso dos oráculos não deveria acarretar em uma crença cega capaz de transformar tudo em sinal divino. Pois, como ressalta Kerényi, “(…) a verdadeira religio é moderada, é uma abertura absoluta ao acontecer divino do mundo, um sutil escutar atentamente seus signos e uma vida encaminhada a ela e organizada em sua função”.

Assim, o sentido primeiro do termo Religio não parece com aquele tomado por nossa palavra religião tal como a utilizamos hoje. O caminho que o termo percorreu na história das religiões fez com que seu significado passasse por profundas transformações. Bouillard chama a atenção para o fato de que o Cristianismo, ao se apresentar como a verdadeira religião, se opôs aos falsos cultos. Assim sendo, o vocábulo Religio, que antes dizia respeito ao culto romano arcaico, não poderia ser utilizado para designar a “verdadeira” religião. Era necessário encontrar/roubar um outro termo que correspondesse a fé e às práticas crististas, só para variar.

A dúvida é: será que os nossos Tchandalas poucos criativos nos campos verdejantes do Ser e de tudo ao que se refere HUMANO se limitaram a tomar “emprestado” esta palavra e alteraram como o fazem de práxis em tudo onde se metem, ou eles “adotaram”, com o vocábulo, um conceito já formado pelos antigos Romanos? Nesse caso, que precauções os escritores crististas tomaram, que tratamento eles deram ao conceito pagão, para que seu emprego não pervertesse a originalidade da fé cristista?

Segundo Dubuisson, a religião enquanto domínio radicalmente separado e diferente daquilo que a cerca é uma criação exclusiva e original dos primeiros pensadores crististas de língua latina como Lactâncio, Tertuliano e Santo Agostinho. Ao se criar um domínio específico para a religião, surge também o espaço do não religioso, do profano: “(…) a diferença e a superioridade que ela [religião] reivindicava para si mesma enquanto religião verdadeira reservada ao Deus verdadeiro (…) fazia apelo à necessidade do mundo profano”. Nesse mesmo sentido, Benveniste afirma que só se poderia conceber claramente a religião a partir do momento em que ela é delimitada, quando ela ganha um domínio distinto, onde pode-se saber o que lhe pertence e o que lhe é estranho.

Portanto, antes de designar a “verdadeira” religião, nos parece que o termo Religio, enquanto observância escrupulosa do rito, enquanto um zelo constante em relação aos Deuses, dizia respeito aos atos do próprio cotidiano; cotidiano que, por sua vez, deveria se configurar por esse cuidado constante em relação aos Deuses. Talvez essa característica explique porque, inicialmente, Religio era um termo ordinário do vocabulário romano; pois, parece que todos os atos faziam parte do âmbito de Religio. Quando instituída a “verdadeira” religião, o termo necessitava de uma distinção em relação à prática já existente, necessitava de uma significação e de uma delimitação exatas. Assim, os domínios do sagrado e do profano precisavam ser determinados para contribuir com a clara definição daquilo que era “realmente” religião.

A partir de então, as outras experiências não mais dizem respeito à “verdadeira” religião e nem estariam aptas a serem assim nomeadas. As experiências das outras culturas, que poderiam estar relacionadas com a esfera sagrada, foram consideradas “primitivas”, necessitando de uma interpretação, de uma explicação; tratava-se de um estágio primitivo do pensamento que, necessariamente, em uma linha determinada pelo progresso, teria que alcançar o máximo de sua evolução no monoteísmo do “verdadeiro” Deus.

Nos escritos de Tertuliano, como Ad Nationes e Apologeticum, ambos redigidos no ano de 197, lê-se: “a passagem dos Deuses múltiplos ao Deus único é a passagem do erro à verdade, […] opondo à Romana religio, vã porque seus Deuses não existem, à vera religio veri Dei. São apresentados dois sistemas religiosos, um deve substituir o outro, o erro deve ceder lugar à verdade.”. Tertuliano vê as práticas romanas anteriores ao cristianismo como fruto de uma interpretação deformada da verdade contida na Bíblia, o que explicaria os possíveis pontos em comum entre pagãos e cristãos, e a superioridade desses últimos. Ao mesmo tempo em que buscava traçar nitidamente a fronteira entre a “verdadeira religião” e a religião pagã, Tertuliano também traçava a fronteira que separava o Cristianismo da filosofia. Os Tchandalas da Igreja colocaram a fé no lugar da filosofia, interpretando-a como verdadeira forma de sabedoria. De acordo com Pannenberg, a teologia cristista envolveu-se desde os primórdios com a filosofia e com a discussão de suas teorias e na sua fase inicial, a teologia cristista vinculou a fala cristista sobre o Deus Criador com a pergunta por Deus na filosofia, ou seja, com a pergunta pela verdadeira forma de realidade divina. O que fazia que o Cristianismo surgisse como uma filosofia não era a sua preocupação com a ética e a cosmologia, mas essencialmente com a teologia, afastando-se da mitologia. Contudo, segundo Jaeger, Tertuliano opôs-se à essa tendência de pensadores, tanto gregos como crististas, que tentavam entender o Cristianismo como uma nova filosofia, comparável às filosofias gregas do passado e mensuráveis pelos mesmos critérios lógicos. Portanto, o apologista cristista faz uma distinção nítida entre a fé da religião cristista e a filosofia como mera atitude racional e vê na superioridade da fé sobre a razão precisamente o seu carácter suprarracional. Tertuliano chegava mesmo a se perguntar o que tem Atenas a ver com Jerusalém ou a Academia com a Igreja.

Agora só faltava ao termo uma origem etimológica própria, diferente daquela Religio/Relegere que dizia respeito à prática considerada pagã, nas palavras de Lactãncio: “(…) na medida em que a verdadeira religião se dirige ao único verdadeiro Deus, divindade única, a religião tende a valorizar esse laço que liga (religare) o homem a Deus”.

A obra de Lactâncio, Divinae Institutiones, segundo Bouillard, marca uma etapa importante no emprego da palavra e na elaboração do conceito. Partindo da ideia de que religião e sabedoria só podem ser verdadeiras na sua união, Lactâncio rejeita tanto os cultos pagãos quanto a filosofia. No primeiro, o culto dos Deuses estaria separado da sabedoria porque ignora-se que a sabedoria condena a multiplicidade e indignidade dos Deuses, porque não existe a preocupação com a moral, nem se procura com a verdade, mas se contenta com os ritos exteriores. A filosofia, ao contrário, procura a sabedoria, mas não a encontra porque não chega à piedade. Para Lactâncio, o Cristianismo é a verdadeira filosofia: “(…) a verdadeira sabedoria para os pensadores, a verdadeira religião para os ignorantes”.

É evidente agora que o nosso entendimento sobre a religião ou religare é e foi em muito manipulado, uma busca da palavra na maioria dos dicionários e teremos ainda essa visão de Lactâncio. É interessante notarmos a estratégia dos subterrâneos, a apropriação e distorção como parte de um jogo para “aliviar” massas “pecadoras” e prometer “céus” a saliva dores.

Devemos a Lactâncio, esse subterrâneo dos subterrâneos, a distorção também da palavra Superstitio. Para ele era importante que a sua “religião verdadeira” se opusesse das formas “exageradas da crença ou dos cultos” e para isso utiliza-se deste termo para com isso marcar, introjetar, doutrinar, ou seja, que os crististas não seriam guiados pelos oráculos, logo falsos guias dos falsos Deuses.

Em sua origem Superstitio seria o dom da segunda visão que permite conhecer o passado como se estivesse estado presente, é o “dom da presença”; sendo superstitiosus a propriedade da dupla visão que se atribui aos videntes, aquela de ser testemunha de acontecimentos aos quais não se assistiu, propriedade daquele que é provido do “dom da presença”.

Era necessário depurar o termo das práticas pagãs para poder designar o Cristianismo, com isso, Lactâncio afirma que a religião não consiste em práticas bem refletidas tal como Cícero propunha para a religião romana, e sim no laço de piedade através do qual estamos ligados a “Deus”; aos homens cabe servir e obedecer ao “deus único e verdadeiro”.

Na sua visão, são supersticiosos aqueles que têm vários Deuses, já que o verdadeiro homem religioso é aquele que dirige suas preces a um único deus, ao “verdadeiro deus cristista”. Não se trata mais da observância e execução meticulosa dos ritos e sim da relação de dependência ao olhar do Criador. Com isso, se opera não só uma transformação no objeto de culto como na própria essência da religião.

É evidente que a operação de Lactâncio foi ao mesmo tempo filológica e ideológica: o objetivo dele era, em certo sentido, ‘capturar’ e redirecionar o termo Religio, de modo que fosse capaz de exprimir tanto o conceito de transcendência segundo o pensamento cristista, quanto – mais do que o comportamento do crente – a natureza da relação de fé instaurada pelo cristianismo entre o nível humano e o nível divino. Religio como religando, significava purificar o termo latino das escórias do ritualismo pagão para fazê-lo assumir a dignidade de representar o aspecto de dependência que caracterizava, segundo a nova religião, a relação entre a criatura e o Criador, fundada no vinculum pietatis.

Santo Agostinho também se ocupou da questão etimológica do termo. Inicialmente não se opondo totalmente a Cícero e propondo uma via intermediária: de Relegere a Religere, reeleger, no sentido de um retorno a deus. Seria a passagem da negligência para com deus a uma relação reconstruída com Ele agora “escolhido ”, recolocado no centro da atenção e do amor do homem. 

Apesar de Dubuisson afirmar que, no século V, Santo Agostinho não poderia imaginar o destino dessa palavra à época ainda de uso bastante impreciso, será o próprio Santo Agostinho que, ao retomar a leitura de Lactâncio, acabará contribuindo para a imposição de um único significado: “(…) a partir daí o caminho já estava aberto para a ideia de que religio significava uma ligação baseada na submissão e no amor entre o homem e deus”.

Antes da “origem” etimológica proposta por Lactâncio ser entendida, da forma ampla que é hoje, como disse anteriormente, esta se desdobrava em torno de duas diferentes concepções. Aquela proposta por Cícero, sobretudo relacionada com a experiência da religião dos antigos romanos, portanto com o politeísmo; e a definição proposta por pensadores crististas para definir a nova religião monoteísta que surgia.

No primeiro caso, Relegere, a religião se configura essencialmente pela prática, pelo fazer escrupuloso que determina uma relação com os Deuses; no segundo caso, religare, estabelece-se uma relação passiva entre homem e deus, que é determinada por um laço de piedade. Assim o conceito de Religio se modifica e se remodela de acordo com a ideia que o homem tem da sua relação com o Divino.

Então, como devemos entender o termo religião?

Benveniste acredita que o uso antigo do vocábulo, que o relaciona ao escrúpulo, impõe uma única interpretação para Religio: aquela dada por Cícero. Assim, Benveniste opta pelo que seria a sua verdadeira origem etimológica, relacionando-a a Relegere. No entanto, se, por um lado, conforme visto até aqui, o sentido primeiro da etimologia de Religio coube à Relegere, por outro, o Cristianismo impôs o Religare como sinônimo do termo Religio e com isso marcou a todos nós ocidentais com essa interpretação, moldando cada parte com sua visão sem graça e carregada de dogmas no mínimo estranhos.

Ao buscar compreender o surgimento histórico-fisiopsicológico da palavra religião e de como essa “formou” uma sociedade e suas crenças, penso com mais Amor ainda que Thelema não é essa religare no sentido pop que Lactânio nos “presenteou”, pessoalmente poderia traça-la para o lado de Cícero, mas Thelema é muito mais que a razão, uma pilha de livros e repetições pomposas, ao meu ver é um DELICIOSO MERGULHO REFRESCANTE E FODA EM NOSSO OCEANO PROFUNDO E ESTELAR.

É esse MERGULHAR que nos ensina a INVESTIGAR tanto acima quanto embaixo, é uma AVENTURA na estrada dourada, perigosa!? Sim, mas nem por isso menos EXCITANTE.

Por fim, PERTENCERMOS a NÓS MESMOS, sem algemas douradas, sem necessidades de aplausos, sem dogmas, KA-minhantes livres no Corpo DELA, eis ao meu ver a verdadeira Relegere.

Autor: Frater Tahuti

Arte: Harmony Rosales

Referências Bibliográficas

BENVENISTE, Émile. Le vocabulaire des institutions indoeuropéennes. Paris: Les Éditions Minuit, 1969.

BONNEFOY, Yves (dir.). Dictionnaire des mythologies et des religions des sociétés traditionnelles et du monde antique. 2 vols. Paris : Flammarion, 1981.

BOUILLARD , Henri. La formation du concept de religion en Occident. Paris: Payot Éditions, 1991.

CÍCERO. Sulla natura degli dei. Milano: Oscar Mondadori Editore, 2004.

DUBUISSON, Daniel. L’Occident et la religion : mythe, science et idéologie. Bruxelles, Éditions Complexe, 1998.

KERÉNYI, Karl. Antike Religion. Klett-Cotta Ed, 1995.