Acampamento Opus Solis

Thelema não é desculpa para grosserias

Faze o que tu queres será o todo da Lei.

Antes de iniciar a breve reflexão que se seguirá é importante me colocar sob um guarda-chuva protetivo para que não seja interpretada como hipócrita ou posturas cognatas: tudo que escrevo faz parte do meu próprio processo de aprendizado e não significa, necessariamente, que jamais tenha cometido as mazelas que exporei. Como parte do meu processo cognitivo intelectual e prático está ligado a escrita e à oralidade, significa apenas que escrever ou falar sobre determinado objeto é o resultado de um aprendizado às vezes doloroso e outras vezes muito divertido e indubitavelmente produtivo; como uma coagulação que faz do espírito mais esperto.

Feita tal reserva, posso discorrer contando com a inteligência da(o) leitora(or). Observei durante um tempo significativo algo óbvio que merece atenção. Sabemos que a principal proposta de Thelema é exercer a Verdadeira Vontade e também sabemos que Thelema é dotada de qualidades marciais. Inclusive a Liberdade e o Amor por exemplo, na sociedade contemporânea e ancestral, estão também ligados ao exercício marcial de sua conquista, quando retiramos a visão romanesca da jogada.

Ainda assim, não é incomum encontrar pessoas detentoras de discursos Thelêmicos que mais se parecem trampolins justificativos para a grosseria e a falta de educação. Entendemos perfeitamente que uma hora ou outra os espíritos se elevam no calor das conversas e que palavras duras são expressas. Mas isso não deve ser a regra. Não se pode confundir uma postura marcial com grosserias, arrogâncias e ataques velados. Se ataca, seja honesta(o), faça-o de maneira assumida, transparente e dê oportunidade de o alvo responder. Covardes se escondem, Rainhas e Reis nunca deixam de mostrar sua espada.

Um tipo muito perigoso é a pessoa passiva-agressiva que, inconsciente ou não dessa qualidade, se encapuza com palavras espiritalizantes e derrama um lodo tóxico aos demais de seu convívio, como uma erva daninha que suga a vitalidade de uma árvore e não permite cessar o trabalho da jardinagem combativa. É fácil fazer verborragias teóricas, transformar interesses estritamente pessoais e egoísticos em algo transvestido como coletivo, tomar traumas não resolvidos e fazê-los pautas militantes para o bem social comum, se portar como inquisidor que derrama neuroses sobre as pessoas à volta e as condena à fogueira ou julgá-las cegas sobre determinada realidade. É fácil fazer tudo isso e muito mais. Mas é extremamente difícil se colocar reflexivamente sobre si mesma(o) e realmente perceber e aceitar que tais comportamentos não são assim tão produtivos para um grupo ou coletividade Thelêmica, causando desavenças desnecessárias ou gratuitas apenas para satisfazer e extravasar conflitos internos ou interesses privados.

Bom, é exatamente a partir da última frase acima ou outras com ideias aproximadas, que Thelemitas da teoria constroem seus arcabouços passivo-agressivos tóxicos com a justificativa de que o embate e a disputa copiosa e incessante são o coração exclusivo de Thelema e “para o inferno com eles, mestre”! É uma desonestidade intelectual gigantesca. A primeira e mais significativa disputa da pessoa Thelemita genuína é contra si mesma. Caso a batalha interna (que é constante) seja coroada com vitórias consecutivas, possíveis comportamentos passivo-agressivos tóxicos e grosseiros no trato social são totalmente extintos. E ainda que tais comportamentos possam surgir, não são constantes e a autorreflexão rotineira, fruto das batalhas internas, imediatamente conduz a revisão da ação. Ou ainda é fácil de se aproximar da pessoa e dizer claramente sobre a toxidade sem riscos de receber interpretações sob o pretexto de projeção psicológica ou argumentos que buscam infinitamente negar a situação.

Assim, grosserias veladas como suposta marcialidade Thelêmica não é e nem será vontade ou uma conduta Thelêmica. Parece loucura falar da vontade alheia e é possível argumentar contrariamente afirmando que esta é sua vontade: ser uma pessoa grosseira, tóxica, agressiva-passiva, distribuidora de neuroses e traumas. Mas com certeza transparente afirmo que isto não é vontade. Pode ser que seja uma visão deturpada do que poderia realmente ser a vontade ou ainda uma aplicação distorcida. Nenhuma vontade causa toxidade às relações humanas ou ao mundo circundante.

“… que nós possamos em nossa órbita particular irradiar luz e vida, sustento e alegria para aqueles que giram à nossa volta sem diminuição de substância ou efulgência para todo sempre”. | Do Ofício das Coletas, as quais são onze; Liber XV, A Missa Gnóstica.

Ninguém ousa dizer não para uma Verdadeira Vontade. Mas ousarei a dizer não às pessoas grosseiras e tóxicas que usam Thelema como justificativa para tais comportamentos. Ousarei dizer não às minhas próprias tendências dessa natureza e sinceramente buscarei entendê-las e encontrarei suas raízes. E é muito provável que concluirei que nada fazem para o exercício da vontade.

A vontade leva à harmonia interna e com o mundo circundante, ainda que às vezes o consideremos “defeituoso”. A vontade traz a percepção de que cada coisa está no lugar e no tempo apropriado. A vontade impede que se sinta ofendida(o) com as críticas e dá capacidade para que sejam abraçadas como dádivas do Anjo. A vontade traz visão clara sobre si. A vontade concede ensinamentos sobre como podemos usá-la para somar à força motriz de gestação e nascimento de um mundo regido por Luz, Vida, Amor e Liberdade. A vontade é o elo que permite o crescimento, a frutificação e o renascimento em multiplicidade de frutos, como uma árvore que vê a terra dura como nutriente e não como empecilho. A Verdadeira Vontade se faz como uma antena projetiva de harmonia e beleza. Os percursos dolorosos e marciais para sua conquista são uma esfera particular que quando mal compreendidos, se transformam em vômitos: discursos espirituais passivo-agressivos, tóxicos-teóricos, grosserias encapuzadas de marcialidade thelemica que apenas fazem minar a saúde das relações grupais e coletivas.

Thelema também é ternura, amor, cuidado, receptividade, escuta e doçura. É o mel sagrado cuja feitura é a alquimia secreta da Deusa Abelha. Marcialidade não implica ausência de diplomacia, cortesia e educação e não é sinônimo de posturas grosseiras, atos e falas veladas que destilam venenos cobertos de teorias bonitas que, como canto da sereia assassina, seduz os tolos desprecavidos. Marcialidade e assertividade estão do lado oposto de uma linha tênue que as separa da grosseria e da toxidade. Talvez Thelema não seja religião e nem filosofia, mas uma Arte verdadeira que une maestria técnica com a mais sublime inspiração. Assim, muitas pessoas podem ser consideradas religiosas ou filósofas, mas pouquíssimas se arriscarão em construir obras artísticas memoráveis.

E como já disse Jout Jout: “Bateu, doeu. Pega que é teu”.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Autora: Soror Lótus

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