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20 de março de 1974.

Care Frater,

Faze o que tu queres será o todo da Lei.

Vamos dar uma olhada na frase acima. Parece simples, mas, para alguns, sua simplicidade é tão vaga que não conseguem seguir esse imperativo. Há muitas passagens em Liber Aleph, de Crowley, que lidam com esse problema. De fato, “fazer a tua vontade” é a primeira tarefa de todo Thelemita.

Você não só deve aprender a fazer sua própria vontade, mas também permitir que os outros também façam a vontade deles. Vamos usar de exemplo a simples questão de criticar o outro. Entre Thelemitas, deve ser entendido que a crítica implica que o crítico deseja que a outra pessoa se comporte conforme seu código de conduta. Em outras palavras, o crítico obstrui a livre fruição da Vontade do outro. Ele constrói um padrão de conduta, que é o seu próprio, e o aplica a outra pessoa. Não nos é dito em Liber AL vel Legis: “Nada restrinjais! Que não haja diferença feita em meio a vós entre uma coisa qualquer & outra coisa qualquer; pois por meio disso vem dor”. (AL, I:22)?

Por favor, entenda que de forma alguma estou me referindo ao que acontece entre o guru e o chela ou discípulo– quando o guru deve usar a crítica construtiva em certas situações complicadas. Esse tipo de trabalho – crítica dura – é baseada no conhecimento que o guru possui sobre os vários fatores na natureza do chela que estão obstruindo seu Caminho para o Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião. 

Estou falando sobre a variedade de crítica diária que muitos aspirantes a Thelemitas ficam tentados a fazer. Tenho visto muito disso, sendo muito frequente em vários tipos de ordens ou em certos tipos de grupos religiosos. Essas pessoas formulam sua própria concepção de ideal e, então, começam a pedir que o outro viva conforme seu pensamento. Agora você vê a razão para controlar a língua? Se você tem liberdade para fazer sua vontade, então você deve dar essa liberdade ao outro. Deixe-me citar Liber Aleph, p. 193.

DE EADEM RE ALTERA VERBA

Por esta Compreensão sejam refutados aqueles que Criticam nossa Arte dizendo, em sua Insolência, que se nós temos todo Poder por que então às vezes estamos sob Pressão de Pobreza e em Desprezo dos Homens e em Dor de Doença e assim por diante, zombando de nós e considerando nossa Magia uma Ilusão. Mas eles não contemplam a nossa Luz nem como ela nos guia em nosso Caminho para um Objetivo que não está na Compreensão deles, de forma que nós não cobiçamos aquilo que lhes parece a Única Comida e Conforto na Vida. Também, isto que nós alcançamos, se bem que seja a Essência de Onisciência e Onipotência, informa e move o Mundo Material (por assim chamá-lo) somente de acordo com a Natureza daquilo que ali está.  Pois a Luz do Sol (pela Sua própria Totalidade) mostra uma Rosa Vermelha, mas uma Folha verde; e seu Calor reúne as Nuvens, e também as dispersa. Então eu, mesmo que eu fosse perfeito em Magia, não poderia trabalhar em Metais como um Ferreiro ou me tornar rico no Comércio como um Mercador; pois eu não tenho em minha Natureza as Máquinas próprias para estas Capacidades, e, portanto, não é de minha vontade buscar exercitá-las. Aqui, então, está o meu Caso: que Eu não posso porque Eu não quero, e haveria Conflito se eu me voltasse para lá. Mas que cada homem se torne perfeito em seu próprio Trabalho, sem ligar para a Crítica do outro nem pensar que algum Caminho que não o seu, seja mais Nobre, ou mais Lucrativo, deve ser vigilante em deixar sua mente voltada para cuidar da sua própria Vida.

Deixe-me frisar que toda pessoa pouco desenvolvida vê o mundo e os outros através de uma janela estreita. Essa janela é a própria natureza. Como aspirantes à Iniciação, eles formulam uma ideia em si próprios sobre como uma pessoa Iniciada deveria ser. Essa ideia é nada além daquela sobre nosso Higher Self, a qual se quebrou em nossa vida mental e consciente. Poderíamos, ainda, usar termos junguianos para nominá-los anima ou animus, o que Jung afirma ser a ponte para o conhecimento do Divino. São as ideias de tudo o que é bom, ou verdadeiro, ou belo, ou do mais elevado que podemos conhecer. O estudante que encontrou um guru ou um professor imediatamente começa a projetar sua própria ideia sobre seu Higher Self no guru e começa a exigir que ele viva conforme tal ideal. Se o guru é bem diferente daquilo que os estudantes pensam sobre ele, haverá muita decepção. Pior, o estudante pode estar atrapalhando gravemente o guru em sua função, pois se o guru disser algo que o aluno não espera ouvir, haverá muito problema. Ainda pior, o estudante não está permitindo que o outro viva em Liberdade. Thelema não é a Lei da Liberdade? Por essa razão, a posição de professor ou guru pode ser muito perigosa para aquele que não está firme em sua própria Vontade. Veja quão pouca liberdade é dada às figuras públicas – seja presidente, ministro, diretor de escola, estrela de cinema, ou qualquer outro de vida pública que deve suportar o fardo das projeções dos outros. Imagine as cartas peçonhentas que essas pessoas recebem de pobres almas malucas, habilidosas na arte de projetar sobre os outros. Quem não vê que estas exigem dos outros a conduta que só servem para elas mesmas.

Tem algo maravilhoso que o Sábio deseja que permaneça desconhecido? Caso contrário, é a Vontade dele ensinar ou trazer uma Nova Palavra à humanidade.

Além disso, esse hábito de projeção das características de um sobre o outro pode ter repercussões nefastas. Que tal quando toda a nação alemã projetou suas frustações em um homem como Hitler? Ou o sexo reprimido, que está ligado com a morte e, então, temos grupos de linchamento?

A mesma coisa acontece com o primeiro amor. Na realidade, algumas pessoas estão sempre procurando por seus Higher Selves (pelo anima ou animus) no sexo oposto. Por essa razão, ficam cegos para a Verdadeira Natureza do Amado. Da mesma forma poderiam estar cegos para a Verdadeira Natureza do guru. Obviamente, eles nunca encontrarão a anima ou o animus, ou o Higher Self, em outra pessoa. Isso seria uma impossibilidade contra a Natureza. Cada pessoa é uma Estrela em si e de si mesma. “Todo homem e toda mulher é estrela” (AL, I:3). Às vezes, tais pessoas ficam desapontadas, pois não podem encontrar o Verdadeiro Self em outrem. Mais cedo ou mais tarde, o amado insiste em ser ele mesmo. Tais decepções podem levar a mais e mais casamentos, ou a pessoa pode se recusar a se casar, desejando apenas sair com muita gente, sem relações sérias. Essa pessoa nunca cresce a ponto de poder encarar a si mesma. Já a busca por um guru apropriado que possua todos os ideais que o estudante deseja para si mesmo pode levá-lo a participar de uma Ordem Ocultista atrás de outra, na esperança de que, encontrando-se em outras, ele possa atingir a Iniciação mais rápido.

Em situações como essas, é necessária uma compreensão mais holística da própria natureza e um processo de amadurecimento que leve o estudante a conhecer e a ser o próprio Higher Self. É um caminho de um escravo e de um covarde não se dar conta de que os ideais que projetamos sobre o outro são os nossos próprios e que tais ideais não necessariamente correspondem ao do outro. Ademais, exigir ou mesmo pensar que o outro devesse viver conforme ideais que nós mesmos formulamos é uma séria tentativa de escravizá-lo ou de lhe dificultar a expressão da própria natureza. Aqui vemos a principal razão para que níveis inferiores da humanidade desejem puxar os gênios para baixo. A pessoa que não se desenvolveu é incapaz de reconhecer suas próprias projeções, sejam de maior ou menor variedade; então, quando ela descobre sobre outros que vivem acima das regras das mentes das massas, fica com medo de tal liberdade e busca trazê-los para seu próprio nível de pensamento. Essa é uma razão pela qual o Livro da Lei afirma “Vós sois contra o povo, Ó meus escolhidos”! (AL, II:25). Devido às ramificações desse problema, pode ser muito proveitoso estudar Nietzsche e especialmente sua obra “Assim Falou Zaratustra”.

A propósito, é marca de uma religião escrava esperar que todos sigam os ideais de seu fundador. O Cristianismo é um bom exemplo disso. Ou, talvez, poderia dizer Igrejismo?

Às vezes penso que Crowley agiu deliberadamente para quebrar uma projeção ou outra feita por seus alunos. Assim, ouvimos estórias estranhas sobre seu comportamento para com os outros. Não poderíamos considerar que isso possa ser um de seus motivos para seus atos? Vamos citar novamente o Liber Aleph, páginas 147 e 148.

DE MYSTERIO MALI 

Além disso, não digas em teu Silogismo que, desde que qualquer Mudança seja ela a Criação de uma Sinfonia ou de um Poema ou a Putrefação de uma Carcaça, é um Ato de Amor, e desde que nós não devemos fazer Diferença entre qualquer Coisa e qualquer outra Coisa, portanto todas as Mudanças são iguais com Respeito ao nosso Apreço. Pois se bem que isso é uma Conclusão correta em Termos da tua Compreensão como um Mestre do Templo, no entanto ela é falsa aos Olhos daquele que ainda não atingiu à Compreensão. Portanto, qualquer Mudança (ou fenômeno) parece nobre ou vil à Mente imperfeita, na proporção da sua Consonância e Harmonia com a Vontade que governa aquela Mente. Assim, se for tua Vontade te deleitares em Ritmo e Economia de Palavras o Anúncio de uma Comodidade pode te ofender; mas se tu estás necessitado daquela Mercadoria, tu te regozijarás com o Anúncio. Elogia então ou culpa qualquer Coisa, como te parecer melhor; mas com esta Reflexão: que teu Julgamento é relativo à tua própria Condição, e não absoluto. Isto é também um Ponto de Tolerância, pelo qual em verdade tu evitarás aquelas Coisas que te são odiosas ou prejudiciais, a não ser que tu possas (em Nosso Modo) conquistá-las pelo Amor, retirando delas tua Atenção, mas tu não as destruirás, pois elas são sem Dúvida o Desejo de outrem.

DE VIRTUTE TOLERANTIA

Compreende então de todo coração, ó meu filho, que na luz desta minha sabedoria todas as coisas são uma, sendo do corpo de Nossa Senhora Nuit próprias, necessárias e perfeitas. Não há, pois, nada supérfluo ou prejudicial, e não há nada mais honroso ou desonroso que outro. Vê! Em teu próprio corpo, o vil intestino é de mais valor para ti que a nobre mão ou o altivo olho, pois tu podes perder estes e viver, mas não aquele. Estima, pois, cada coisa em relação à tua própria vontade, preferindo a orelha se tu amas a música, ou o paladar se amas o vinho, mas os órgãos vitais acima destes. Respeita também a vontade do teu próximo, não o impedindo em seu Caminho salvo quando ele te obstruir demasiado no teu. Pois pela prática desta tolerância tu chegarás mais cedo à compreensão desta equidade de todas as coisas em Nossa Senhora Nuit e assim à alta consecução do amor universal. Porém, em tua ação parcial e particular, como tu és uma criatura de ilusão, mantém a reta relação de uma coisa com outra, lutando se tu és soldado, ou construindo se tu és pedreiro. Pois se tu não manténs firme esta disciplina e proporção, que permite sua verdadeira vontade a toda parte do teu ser, o erro de uma carregará as outras todas após si à ruína e à dispersão.

É claro que você já observou que as pessoas procuram e se tornam amigas daqueles mais próximos aos seus próprios ideais e tipo de pensamento. Também, você sabe, da experiência do dia a dia, o quanto aqueles que se desviam de suas próprias capacidades mentais são criticados e evitados. Dessa forma, nós também nos escravizamos na medida em que criamos, ao nosso redor, uma cerca de incompreensões. Recusamos aprender com boa parte da humanidade porque não pensa como nós.

Em verdade, cada contato que temos uns com os outros pode se tornar uma lição de menor ou maior magnitude. O estabelecimento de cada contato foi livremente desejado pela alma, tal como são desejadas as circunstâncias de nascimento ou morte. A vida é uma escola – é uma prática da Vontade. Essa questão é tratada em Liber Aleph, página 144.

DE HARMONIA VOLUNTATIS ET PARCARUM

Este é o evidente e definitivo Solvente do Nó Filosófico concernente a Destino e Livre Arbítrio sendo o teu próprio Ser, onisciente e onipotente, sublime em Eternidade, que primeiro ordenou o Curso da tua própria Órbita de forma que aquilo que te acontece por Destino é na Verdade o Efeito necessário da tua própria Vontade. Estes dois, então, que qual Gladiadores se tem guerreado na Filosofia através destes muitos Séculos, são feitos Um pelo Amor sob Vontade que é a Lei de Thelema. Ó meu Filho, não existe Dúvida que não se resolva em Certeza e Raptura ao

Toque da Baqueta da nossa Lei, se tu a aplicas com Discernimento. Cresce constantemente na Assimilação da Lei, e tu te tornarás perfeito. Contempla, há um Cortejo Triunfal à medida que cada Estrela, livre de Confusão, move-se livre em sua reta Órbita, o Céu inteiro te aclama enquanto vais transcendental em Alegria e Esplendor e tua Luz é como um Farol para aqueles que vagam longe, perdidos na Noite. Amoun

Uma vez que essa questão de projeção é tão comum e tão pouco compreendida pela maioria das pessoas, sugeriria que você tomasse nota das vezes em que esperou que os outros agissem conforme seu pensamento e sentimento. Por que os atos de alguém o deixam nervoso? Você não ficaria bravo se não houvesse essa tendência dentro de si, pois não reconhecemos aquilo que nunca tivemos como parte de nós mesmos. Todos os eventos que causam uma forte reação emocional ou mental podem ser analisados como uma mostra de você para si mesmo. Assume a responsabilidade pelas suas reações, pois isso é um espelho para sua natureza e vida. A chave para o seu Ser encontra-se aí. Se as projeções não são controladas nem compreendidas, se o aspirante à iniciação não conhece a natureza de seu próprio Ser, então ele ficará numa posição perigosa quando os próprios demônios se voltarem contra ele.

Há um grande perigo de que a pessoa obsidiada pelo conteúdo do próprio inconsciente possa projetar a natureza demoníaca de si mesmo sobre outras pessoas ou ainda sobre entidades incorpóreas. Ela pode se afundar no horror de áreas reprimidas do inconsciente. Ela pode ficar louca. Todos os humanos são compostos por fatores positivos e negativos, por demônio e anjo, pela besta e pelo homem. A primeira tarefa, portanto, de Aquele quem Vai, é Compreender a Si Mesmo.

De fato, até que você possa compreender a si mesmo, não estará apto a ensinar aos outros, pois teria uma tendência a lançar suas próprias projeções, boas ou más, sobre os estudantes. Acredito que você possa deduzir de toda essa explanação quão perigosos certos professores de ocultismo podem ser ao aluno incauto. É uma faca de dois gumes, sem dúvida. Por essa razão, Crowley disse que ninguém estava apto a ensinar a menos que fosse um 5º=6 (ou, em outras palavras, que tenha atingido o Conhecimento e Conversação com o Sagrado Anjo Guardião – SAG).

Esse Caminho para o Conhecimento e Conversação com o SAG é tão pessoal que qualquer professor se privaria de ditar qualquer parte do caminho. Cada pessoa deve crescer sozinha. Cada pessoa, mesmo que seu caminho pareça de tropeços, deve, de alguma forma, conduzir-se para a consecução.

Porém, o Deus encontraria dificuldade em habitar um templo precariamente preparado. “Sabedoria diz: sê forte! Então tu podes suportar mais prazer”. (AL, II:70).

Rumo a esse objetivo, você pode se fortalecer. Você pode analisar as projeções, as emoções, os pensamentos, de forma que compreenda o self e comece a conhecer a Vontade e a entender como executá-la. Às vezes um professor pode ser útil nos primeiros passos, apontando as fraquezas que podem se tornar grandes barreiras, ou prescrevendo exercícios mentais e físicos que tornam o corpo e mente aptos a suportarem a União com o SAG sem fracassar.

Mas lembre-se que o professor é apenas um espectador do crescimento interior, uma mão amiga, uma pessoa que coloca placas de sinalização no caminho que atravessa uma floresta. Lembre-se que o professor não é seu Higher Self; mesmo que o tipo de professor que você escolha seja muito próximo da sua ideia de Higher Self. Também lembre-se de que o trabalho a ser feito é de sua própria escolha, assim como foi a escolha de seu professor. Ambos os eventos lhe darão uma percepção do self.

Em suma, para conhecer a nós mesmos, devemos assumir a responsabilidade tanto de nossos próprios pensamentos e ações quanto dos eventos que nos acontecem. Fazendo isso, você terá levado sua vida para um nível surpreendente. Penso que uma das marcas do Iniciado é que ele sabe disso; e, se valendo desse conhecimento, começa a criar eventos conforme sua Vontade.

Na grande complexidade de nosso ser, precisamos escolher algumas ideias proeminentes e trabalhar nelas por um tempo de forma que não sejamos pegos desprevenidos ou tão vulneráveis às profundezas de nosso próprio inconsciente, às repressões que distorcem nosso pensamento e às projeções terríveis e idealistas. No momento, trabalhemos essas últimas, pois pode ser um grande obstáculo à Iniciação.

Que você encontre sucesso em seu trabalho!

Amor é a lei, amor sob vontade.

Soror Meral

Editorial de In the Continuum, v. 1, n. 3, p. 1-7.

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