Acampamento Opus Solis

Tempus Transit

Faze o que tu queres será o todo da Lei.

“Vede os bons e os justos! A quem odeiam mais? A quem lhes despedaça as tábuas de valores, ao infrator, ao destruidor. É este, porém, o criador”. Assim Falou Zaratustra

A espera do ônibus por mais chata e cansativa que possa ser depois de um longo dia de trabalho nos leva há algumas reflexões divertidas sobre o dia a dia, sobre nossas escolhas e pensamentos mais profundos. Em uma dessas noites de espera, observando o vai vem de um grande centro urbano, ali no canto fumando um cigarro, ouvindo música no celular, comecei a pensar em nosso aclamado século e seus avanços tecnológicos, era da informação a televisão e a internet sempre me lembram, são tantas coisas e tantos acessos, mas uma olhadela a frente e um ser humaninho em protesto a queimadas recentes da Amazônia me joga alguns papeis de bala ao chão enquanto de bocão cheio reclama das condutas das pessoas.

Aí você para e pensa: bom nossos telefones, casas, computadores e carros, hoje estão cada vez melhores, a medicina avança a cada dia e somos capazes de criarmos naves espaciais ultramodernas, mas nós, ou melhor, muitos parecem viverem em pleno século XIII em suas cabeças e atitudes. Todavia, ainda, apesar de todo esse avanço, estamos atravessando uma transição de Aeons, onde de um lado mesmo a espera de um ônibus podemos notar os resquícios gritantes de um grande cadáver, a cada esquina uma promessa de salvação para todo o tipo de bolso. Uma passadinha rápida em alguma praça pública e lá estão: pastores-do-faz-de-conta anunciando no pague aqui e deixe sua alma, os seus saliva-dores e um cômico diabo sem férias ou até mesmo paz, diabo este servo eterno de um insidioso deus barbudo nas nuvens do além do além do além.

Em contrapartida, uma olhadela nos postes da cidade e….”trago a pessoa amada”, “abre caminhos” “Coach da esperança” “maga da luz oferece curso e iniciação”, “Jesus Coaching” e toda a sorte de alivio rápido, a pressa, algo novo, e a não responsabilidade por seus atos, algo do velho, imperam em mentalidades que buscam algum tipo de fast-iluminação com hóstia dupla e nuvens grátis. O cardápio da fast-iluminação é assustadoramente variado pelo o que se pode observar por aí, no meio ocultista o mais procurado é o egão com porções de califa delirante de alguma coisa, mestre dos magos e o hilário e indigestível mago dos likes e aplausos. Com algumas moedas e alguns arrependimentos qualquer um pode comprar um lugarzinho no céu, afinal, por aí, “Templo é dinheiro”.

E a espera continua….

Uma espiada nas redes sociais e putz…terra plana!

Nessa hora podemos imaginar o quão chateado Erastóstenes, um estudioso grego chefe dos bibliotecários na Biblioteca de Alexandria que viveu entre os anos de 276 a.e.c. e 195 a.e.c. deve estar.

Erastóstenes, descobriu não só que vivíamos em uma esfera como também chegou ao valor muito próximo de sua circunferência. Tudo isso utilizando apenas “varas, olhos, pés, cérebro e o prazer de experimentar”.

Erastóstenes observou a sombra de duas colunas, uma colocada em Siena e outra em Alexandria. Ele notou que em Siena, no dia do solstício de verão, ao meio dia, o Sol ficava em seu ponto mais alto e a coluna lá instalada não projetava nenhuma sombra. Diferente daquela de Alexandria, que produzia uma pequena mancha no chão. Carl Sagan explica então que, se a Terra fosse achatada, ambas estruturas produziriam sombras iguais. Mas como o planeta é esférico, o sombreamento varia.

Após essa descoberta, calcular a circunferência da Terra foi (quase) simples. Segundo Carl Sagan, Erastóstenes descobriu os ângulos entre as duas colunas a partir de suas sombras e o valor aproximado foi de sete graus. Com esse valor em mãos, o matemático fez um cálculo de equivalência, já que sabia a distância entre as duas cidades: quase 800 quilômetros. Fazendo as contas, ele chegou à medida de 40 mil quilômetros como a circunferência do planeta. Hoje, sabemos que ele errou por apenas 75 quilômetros.

Erastóstenes também desenvolveu um sistema de latitudes e longitudes, um mapa do mundo (do que era conhecido na época) e também um modo de calcular todos os números primos existentes. Aí em pleno século XXI em uma volta cotidiana para casa, um daqueles vendedores de balas e canetas em auxilio ao Reino da Salivação entra no ônibus, Deus que criação maravilhosa são os fones de ouvidos, imagino qual o senhor deve usar, já que um baratinho segura bem as correntes intolerantes, o seu deve ser daqueles Plus fodasticos que abafa os pedidos dos pidões.

Mas, as vezes à música tem um ritmo ou solo mais baixo o que dá para ouvir certas falas já bem conhecidas, entretanto em tudo há inovações, e o senhor vendedor de balas grita: “Bla Bla Bla…não acreditem que a terra é redonda, pois na verdade é plana, está na Bíblia, que fulano abençoe a todos e a família e etc”.  Sim uma volta para casa tem disso, as vezes nas sextas tem uns mais radicais com algum livrinho agorento debaixo do braço que se sente no direito irrevogável de doutrinar a todos na volta, ou pior, na ida para o trabalho.

Que Tempos não!

 A ideia da terra plana conquista não só os de orelhas compridas e vistas curtas, o conservadorismo dos valores de família pipocando e as morais de bem e mal ditando o horrendo “Tu deves”, aquela chatice sempre gritando intolerâncias para qualquer modo de viver que não seja o deles; e para piorar na pós modernidade temos ferramentas como o WhatsApp e pessoas dispostas a espalharem fakenews aos ventos sem importar com as consequências, talvez pensem medievalmente que na hora que a mais bela vier é só se arrepender e lá estas a frente: um paraíso com cowboys christ, mais cedo bispos e toda a sorte de bons e justos.

Uma das coisas que frequentemente visitam meu trabalho são as relações familiares, seus valores e conceitos de mundo, deus e afins. Esta instituição, família, tem um poder e tanto, suas crenças herdadas, as vezes rígidas, limitadas, são as primeiras cores que aprendemos a utilizar para pintarmos o mundo, alguns artistas ficam presos no cinza do latão da saliva-ação e querem numa espécie de Lost Canvas, pintar para todos um mundo cinza e cheio de nuvens, deus me livre de um mundo sem Sois e Estrelas. Alguns chatos como quem vos escreve, questionam e buscam trilhas mais escuras/claras, outros aceitam e podem no pior dos casos empalidecerem sua linda estrelinha.

Outras criancinhas ao crescerem sentem no íntimo uma necessidade danada, oh Capeta! De sair do mundo feito dos outros, para verem o mundo de uma forma única, com suas próprias cores, sem doses cavalares de pecados açucarados e algodões doces enfeitados de culpa.

Deixando um pouco o senso de humor e dando voz a este anjo negro que guardo no peito com amor, observo que através das nuvens da mentira e do medo muitos se aproveitam das crenças populares e edificam templos abomináveis de falsa paz e ignorância. Quem ousa investigar? Quem ousa questionar?

A cada esquina uma nova interpretação do livro mais pop do mundo, cada interpretação ajustada ao ego e a fome abismal dos crentes em além-túmulos. Para alguns camisa rosa ou azul tem mais valor que educar a sociedade, para outros usar e abusar do nome de algum deus ou santo livro para condenar ou salvar vidas é o mais importante. Outros buscam a magia ou ciências arcanas, ocultas, etc., para atenderem seus egos e numa espécie de hocus pocus e abracadabras terem tudo resolvido.

Também há aqueles que buscam ordens para salvar a vidas deles, ou tirar algum chip implantado, ou para aprender a dominar os outros e ter poder sobre eles, quanta Pobreza de Espirito. Quanta falta de responsabilidade e senso de potencial afligem a muitos que buscam em Magick algum auxílio para atender seus desejos mais mesquinhos e infantis. Sempre me pergunto nesses casos, se estes esperam ao entrarem em alguma Ordem séria, ganhar um tipo de varinha mágica com estrelinhas no melhor estilo Walt Disney e pronto, é o maior mago ou maga dos tempos que resolve tudo menos a si mesmos!?

Em meio a isto e mais algumas tragicomédias do além do além estamos nós, Thelemitas ou não Thelemitas, espíritos que ousam olhar além das cortinas deste trágico espetáculo que estamos todos vivenciando e coparticipando em escala menor ou maior. A nós que aceitamos a Lei de Thelema e seus equivalentes: BOM SENSO e RESPONSABILIDADE, lutamos dia a dia em prol do progresso do ser humano seja ele quem for, de que credo, raça ou cor for, podemos viver em harmonia como as estrelas acima de nós fazem, sem intervir na órbita da outra. É de nosso paladar vivermos sem o pecado original e seus aperitivos, sem intermediários e guias a não ser nós mesmos, não de joelhos e cabeça baixa, mas de pé e com amor sob vontade encaramos a nossa Divindade interior e aceitamos de bom grado este tesão que é a vida e esta jornada deliciosa no Corpo de Nossa Senhora Nuit.

Quer dizer então que Thelemitas são perfeitos?

Pensemos em um momento na ideia de Estrelas em Evolução, nós caímos e nos erguemos a cada dia, enfrentamos nossas dificuldades e saímos rompendo as nuvens que possam tentar macular nossos horizontes, assim como cada espirito livre seja ele adepto da filosofia Thelêmica ou de qualquer outro sistema que visa a evolução e não gaiolas de ouro e o latão blim-blão da gloria e de títulos.

Aos desavisados e aos “cultos” em magick, deixo cair estas palavras ao ruído do motor descendo a serra de volta para casa: Thelema é para todo sincero buscador que quer ser Senhor de si e não dos outros, para aqueles que ousam explorar luz e trevas, sem apaixonar-se pelas dualidades, mas que as envolve em Amor sob vontade e delicia-se na Unidade.

Sinceros buscadores, não pegam o Liber Oz para ajustar a seus egos, ou para impor aos outros, sinceros buscadores utilizam de seu caráter e nobreza de espirito e sabem o quão grave é intervir na órbita do outro, além de um grande desperdício de vida, pois já que tem a sua viva-a, tem seus próprios infernos e céus, lide com eles ao invés de sair aos quatro cantos aos berros que tem que salvar os outros ou que outros tem essa obrigação para contigo.

Magick é, acredito mergulhar em nós e aprendermos a dançar com nós mesmos, a lidar com nossos potenciais e fracassos, é pegar a pá e cavar para além do condicionamento que tentam nos prender desde o dia que abrimos os olhos nesse planeta maravilhoso, ou melhor, redondeta, na nova definição dos segue dores.

Conduto, por mais engraçadas que sejam algumas viagens dos adeptos dos hallucinogen e das fast-iluminações, elas têm um impacto tão profundo na psique, em nosso dia a dia, no nosso planeta, ou redondeta, principalmente quando ganham assento no poder de uma nação, quando se usando o nome de deus e afins promete a um povo sedento algumas gotas de água benta, grana e salvação.

Bom…hora de descer do ônibus e ir para casa, por hoje, já deu a “psicologia da fé e da convicção”, uma taça de vinho, jantar e uma boa música para relaxar é tudo o que quero, mas, sim, não há como fugir da realidade que todo nós pintamos, enquanto brigávamos que A vale mais que B, forças escusas trabalharam em silencio e boommm…sentaram no poder; enquanto perdemos tempo atacando C e defendendo D, essas forças seduzem com sua “psicologia do faz-de-conta” e manipulam à todos em um grau ou outro, e a maioria, os bons e justos, os em prol do conservadorismo nos ditam o que é melhor ou pior, controlam nossos salários, nosso tempo no trabalho, o nosso direito de viver ou morrer, o ar que respiramos, vendem tudo e por aí uma minoria continua brigando entre eles…o velho dividir para conquistar nunca falha!

Fecho essa reflexão de busão com as frases inspiradoras de Foucault: “Precisamos resolver nossos monstros secretos, nossas feridas clandestinas, nossa insanidade oculta. Não podemos nunca esquecer que os sonhos, a motivação, o desejo de ser livre nos ajudam a superar esses monstros, vencê-los e utilizá-los como servos da nossa inteligência. Não tenha medo da dor, tenha medo de não a enfrentar, criticá-la, usá-la”.

“Devemos não somente nos defender, mas também nos afirmar, e nos afirmar não somente enquanto identidades, mas enquanto força criativa”.

Amor é a lei, amor sob vontade.

Autor: Frater Tahuti