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Uma Abordagem Egípcia Antiga para a Psicologia Moderna

A psicologia de hoje oferece um amplo espectro de modalidades para orientar o subconsciente e a instrução do consciente. Há muitas escolas de psicologia que baseiam suas teorias apenas no funcionamento da mente. Há também praticantes holísticos ou transpessoais que dizem que a mente não age separadamente, mas está sempre em interação com o corpo e o espírito. O que fica evidente é uma psicologia fundamental versus uma psicologia espiritual. Vejamos o aspecto da psicologia que estuda a mente e o comportamento em relação a um corpo particular de conhecimento espiritual, muito mais antiga que Freud ou mesmo Sócrates.

No Antigo Egito encontramos uma modalidade ou prática, um modo de vida rico nessa síntese de corpo, mente e espírito. O Antigo Egito era um país dominante, e seus centros culturais eram muito poderosos tanto eclesiasticamente quanto politicamente. Seus legados dinásticos e governantes estrangeiros forneceram ao Egito uma história longa e instrutiva. Para o contexto deste artigo, vamos partir dos tempos dinásticos do Egito, ca. 3100–300 a.C.

Jon Manchip White descreve o egípcio-médio como sereno, trabalhador e disciplinado. Ele afirma que eles deviam ter sido uma das civilizações menos neuróticas da história. Eles eram seguros, estáveis ​​e sensatos em relação às suas competências para a vida. Como disse White, o egípcio “se colocou em sintonia com o ritmo do Universo tal como estabelecido pelos deuses”.

Quando um egípcio experimentou questões de dúvida em relação a si mesmo e de análise, ele foi aos seus Sacerdotes. Estes não eram os ministros comuns que encontramos hoje, que ouvem confissões, fazem penitências e oferecem orações. Eles eram médicos multifacetados, filósofos, arquitetos, astrônomos, matemáticos, artesãos e intérpretes de sonhos, e aconselhavam com uma ampla base de conhecimento. Por volta de 3.000 a.C., suas filosofias já estavam firmemente estabelecidas. Os egípcios reconheceram uma ordem divina, estabelecida ao mesmo tempo da criação; essa ordem se manifesta na natureza, na normalidade dos fenômenos; manifesta-se na sociedade como justiça; e manifesta-se na vida de um indivíduo como verdade.

A consciência do povo ou sua inteligência estava no “caminho do coração” e todo o julgamento de si mesmo era pesado contra a “pluma da verdade”. Essencialmente, eles sabiam que, com a morte do corpo, suas almas se encontrariam com o grande Deus Osíris, quem observaria o equilíbrio alcançado durante a vida. Se a pessoa era “verdadeira” ou tinha vivido uma vida de “ma’at” ou equilíbrio, ele ou ela iria desfrutar de uma vida após a morte. O egípcio acreditava firmemente em cultivar suas qualidades divinas para ter uma alma realmente longeva. O egípcio estava preocupado com o karma e boas ações. Assim, não era uma ameaça, como uma possível condenação, que levava a pessoa a cuidar da alma, mas sim algo como o desejo de fazer bem e o correto por seus Deuses e Deusas.

Uma das semelhanças básicas entre a antiga psicologia egípcia e sua contraparte moderna na psicologia transpessoal é que não há limites claros entre suas filosofias e seus comportamentos. Por meio da análise dos primeiros períodos dinásticos do Egito, Frankfort, em A Aventura Intelectual do Homem Antigo (1961), afirmou que, para o egípcio, os fenômenos visíveis e tangíveis em sua existência não eram apenas superficiais e seculares, mas também misturados com o profundo e eterno.

Todas as crianças frequentavam a escola aos quatro anos de idade. Aos dez anos de idade, elas começavam o treinamento técnico em qualquer coisa que tivessem mostrado aptidão. Alguns tornaram-se artesãos, ou entraram em um ofício, alguns se tornaram soldados e outros, ainda com curiosidade filosófica, continuaram sua educação no peristilo externo em preparação para entrar no templo. Além da instrução científica e dos exercícios de ginástica, eles eram instruídos em ética, filosofia prática e boas maneiras. Eles também eram instruídos no desenvolvimento de habilidades de observação e sobre o reconhecimento de valores materiais e morais. Também lhes eram atribuídas certas responsabilidades.

Primeiramente, eles eram instruídos sobre o mundo físico e, mais especificamente, sobre o corpo físico. As funções dos órgãos e partes do corpo eram atribuídas a diferentes Deuses. A relação entre os nomes dos órgãos e seus símbolos forneciam uma indicação direta de sua função vital e cósmica. O olho, por exemplo, era um símbolo extremamente importante. O olho direito simbolizava o sol; o esquerdo, a lua. Eles são a abertura e o fechamento, dia e noite. A palavra para olho “irt” significa basicamente “fazer” ou “criar”. Ra, representando o olho direito, criou o dia ou fez a noite passar para o dia. Assim, o estudante não devia apenas aprender as palavras e símbolos do corpo físico, mas também suas contrapartes esotéricas.

Junto da compreensão física da relação entre as partes do corpo e a de um Deus, também era ensinado o significado de substância e matéria, forma e formas, número, medida e proporção. O conhecimento do valor da medida era necessário para entender a justaposição de imagens; por exemplo, em murais de parede. Schwaller de Lubicz explica o número da perspectiva do antigo egípcio: “O número começa com a cisão da unidade primordial. Unidade causal, ela mesma se cinde em dois estados, o eu e o ego, mas requer que a consciência psicológica perceba a contagem”. Assim começa a consciência do ego.

No interior do hipostilo, as lições continuavam. O iniciado era instruído em três níveis de consciência: a automação, que é o “ser moral” – o físico, emocional e mental; a Testemunha Permanente, que é a personalidade; e a Testemunha Espiritual, que tem o aspecto do ser encarnado ou a mais alta forma de consciência.

Nas palavras de Schwaller de Lubicz, “Não pode haver liberação final para nenhum ser humano sem alcançar a Unidade da Consciência, na qual a Testemunha Permanente reconhece e aceita a orientação da Testemunha Espiritual”. O estudante eventualmente compreende isso e assim elimina seus objetivos egoístas e opiniões obstinadas.

Ao longo deste caminho, o iniciado deve aprender a diferença entre dois tipos de inteligência. Há a analítica, que compreende as ideias cerebrais mediante experiência adquirida, e há a gnose, ou “a inteligência do coração”, que produz uma consciência sobre o estado sutil do ser.

Outro elemento de discernimento é o que existe entre uma realidade percebida e a possibilidade de que a percepção possa ser ilusória. Somente se tornando um observador neutro essa identificação pode se tornar possível. O iniciado experiente, tendo experimentado diferentes estados de consciência, pode eventual e corretamente identificá-los. Por consciência entende-se que é a medida da individualização e que provém do conhecimento dos elementos da gênese do indivíduo.

Para acrescentar ao intelecto e aos elementos comportamentais da gênesis do iniciado, havia sete realizações e sete obstáculos que ajudavam a desenvolver seu eu psicoespiritual.

Uma sensação de presença era a primeira realização para que o indivíduo devia se atentar; e mais especificamente, a presença espiritual.

A segunda era alcançar grande concentração, pois a vontade deve ser uma parte forte da personalidade.

A terceira era a serenidade para alcançar essa qualidade em que é preciso se tornar “neutro” na discriminação, o que produz uma “transparência” ou uma “qualidade de deixar passar a luz”. Ou seja, quando alguém atinge esta serenidade, a sua luz interior passa para fora do corpo e torna-se um brilho fora do corpo.

A quarta é um gesto, ou melhor, o conhecimento do gesto apropriado para lidar com toda a natureza. O gesto correto ensina o ritmo e o caráter das coisas.

A quinta é o silêncio. O primeiro passo para alcançar o silêncio era a imobilidade do pensamento, e não a vontade de agir; a imobilidade do corpo e nenhuma vontade de emoção. Schwaller de Lubicz nos instrui: “O silêncio é o vazio no qual o espírito é atraído”.

A sexta realização é a gratidão, o que leva à alegria verdadeira, uma qualidade vitalizante.

A sétima realização é a generosidade, que significa esquecer-se de si mesmo para o bem-estar do outro. É a união do Eu Espiritual e do Eu Universal, quando estes são reunidos.

Agora os obstáculos: primeiramente, preocupação pessoal é a luta pelo controle entre o ego e o eu superior. Clareza do pensamento e controle das emoções ajudarão no desenvolvimento dos valores. Preocupação com a saúde é uma outra questão.

O segundo obstáculo é a noção errada sobre providência ou o plano do destino. O erro é tentar introduzir um Deus que impedisse que as causas tivessem consequências.

O terceiro é a falsa pena. É importante perceber a diferença entre a falsa caridade e a piedade arbitrária do “altruísmo simpático desinteressado”. Por meio da compreensão disso, a compaixão é aprendida.

O quarto obstáculo é a busca da santidade. Sendo esse um obstáculo extremamente difícil, a falha ocorrerá no início. Com ela haverá vergonha e remorsos, os quais terão “o valor sacrificial de fogo purificador”.

O quinto obstáculo é o sentimentalismo, que Schwaller de Lubicz descreve como uma “relação espúria, mediada pela imaginação, entre a Natureza e nós mesmos”. É improdutiva porque resulta de motivos pessoais, e não do contato com realidades naturais ou espirituais.

O sexto obstáculo é a satisfação. A Testemunha Pessoal deve controlar o Autômato a partir das profundezas inferiores, mas o Eu Espiritual deve elevá-lo ainda mais. Isso pode ser feito se a autossatisfação do Ego não for mantida.

O sétimo obstáculo é a rotina. Caso a deixe tomar conta, a pessoa perde sua própria natureza. Pois a pessoa deve estar plenamente consciente de seus objetivos e encontrar virtude no destino de sua encarnação.

A identificação e a assimilação dessas qualidades, uma vez compreendidas, podem então ser fundidas. Elas aumentarão o físico, estimularão o mental e emocional e fortalecerão o espiritual. Os nomes egípcios para essas estruturas são muito importantes, e um entendimento muito básico, como aqui dado, deve ser suficiente.

O khaibit é o corpo astral ou etérico e age psicologicamente como a Sombra. O Ba é o espírito animador que dá a respiração da vida. Tem dois aspectos. Um é a Alma Natural, que se estabiliza em forma corporal; e o outro é a alma humana, que é representada como um pássaro com cabeça humana, que vem e vai entre o céu e a terra.

O Ka tem três aspectos. Um é o criador de todos os outros; há os diferentes Ka da natureza (mineral, vegetal e animal); e, o terceiro, o Ka individualizado do homem, que inclui seu caráter herdado. O Ba humano de uma alma individual, juntamente com o Ka como o poder generativo, produz uma entidade. Schwall de Lubicz resumiu-o, “assim o Ka é seu agente de consciência, a Testemunha Permanente da transformação de seu ser”. A ampliação da consciência pode modificar o caráter de seu Ka pessoal até que as faculdades espirituais sejam despertadas e que ele entre em contato com seu Ka divino. Era, então, o objetivo de todos os estudantes adquirir uma consciência duradoura por meio de uma comunhão progressiva de seu corpo físico com seu ser espiritual. Os corpos mental e emocional eram apenas transitórios e muitas vezes obstruídos pela união corpo-espírito; mas não se podia ter um sem o outro, por isso era necessário um equilíbrio contínuo.

Tais foram alguns dos ensinamentos apresentados em estelas, ostracas e papiros, trazidos pelos tradutores, através das eras, para o estudante e o professor modernos. É com espanto que ainda hoje podemos ler sobre o que o aluno de eras antigas tinha que fazer para obter uma compreensão de si mesmo, como aprendia a vencer seus obstáculos e a realizar uma presença integral e integrada de si mesmo.

Não é de admirar que os antigos egípcios tenham produzido uma sociedade tão forte e estável por tanto tempo. Foi apenas com as invasões de diferentes pensamentos políticos que os processos educacionais mudaram. Embora esses ensinamentos e terminologias originais tenham mudado para eventualmente produzir o que é hoje a psicologia moderna, ainda há uma abordagem humanista que os behavioristas modernos podem achar benéfica, caso eles escolham examinar e talvez abraçar.

Dentro das seguintes linhas de uma antiga meditação egípcia, encontramos a simplicidade, exatidão e beleza de seu modo de pensar e viverem: “A lei divina é a minha palavra. A palavra divina é minha lei. O caminho é meu ato. O conhecimento é o principal de todas as coisas. A sabedoria é a empatia com todas as coisas. A verdade é a minha condição”.

Titulo Original: An Ancient Egyptian Approach for Modern Psychology

https://www.litachappell.com/articles/an-ancient-egyptian-approach-for-modern-psychology

Autora: Soror Lutea

Tradução: Frater Tahuti

Revisão: אל-אמא-יה

Bibliografia:

Brunton, Paul A Search in Secret Egypt, Anchor Press, Tiptree, Essex, 1965

Erman, Adolf Life in Ancient Egypt, Dover Publications, New York, 1971

Franjkfortm, Henri Ancient Egyptian Religion, Harper and Row, New York, 1961

Schwaller de Lubicz, Isha Her-Bak, Egyptian Initiate, Inner Traditions International, New York, 1978

Schwaller de Lubicz, Isha Her-Bak, the Living Face of Ancient Egypt, Inner Traditions International, New York, 1978

Schwaller de Lubicz, Isha The Opening of the Way, A Practical Guide to the Wisdom of Ancient Egypt, Inner Traditions International, New York, 1981

Schwaller de Lubicz, R. A Symbol and the Symbolic: Ancient Egypt, Science and the Evolution of Consciousness, Inner Traditions International, New York, 1978

White, Jon Manchip Everyday Life in Ancient Egypt, G. P. Putnam’s Son’s, New York, 1963

Wilson, John A. The Culture of Ancient Egypt, University of Chicago Press, Chicago, 1951